terça-feira, março 04, 2008

Youtube, o novo não-lugar

Luís Miguel Loureiro (2007) chama ao Youtube o "novo não-lugar" do mundo. Curiosamente, este conceito de não-lugar foi utilizado pelo antropólogo Marc Augé, como forma de identificar lugares que não permitem criar identidade.

Ora, no texto, Loureiro fala da possibilidade de, no Youtube, nos tornarmos "emissores de nós mesmos" (Broadcast Yourself). Mas, neste mega arquivador de imagens em movimento, onde tudo cabe, há, por um lado, uma infinidade de escolhas que o visitante pode visualizar, mas há, também, "uma infinidade de esquecimentos, em forma de vídeo congelado à espera do accionamento redentor, aguardando um play que pode nunca chegar" (p.165).

Apesar de não-lugar, o Youtube constitui-se como um novo espaço público virtual e, um novo espaço social, no dizer de Vilches (2003: 10), fica à espera da sua ocupação. Fazer-se presente no Youtube é projectar o desejo de lembrança, mas não deixa de ser um repositório dos esquecimento global (Loureiro, 2007: 169).

Este fenómeno, com cem milhões de visionamento a cada dia que passa, que terá inspirado outros sistemas, como é o caso do português Sapo Vídeos, merece ser observado com atenção, nomeadamente no que toca às práticas dos seus utilizadores, este que é, seguramente, um dos espaços mais habitado (!) pelas crianças e jovens. Assim sendo:

  • O que procuram?
  • Quando vêem?
  • Colocam vídeos?
  • Constitui-se como uma alternativa à TV, ou é outra forma de ver, precisamente, televisão?

Referências
Augé, Marc (1994). Não-lugares: introdução a uma antropologia da modernidade. Lisboa: Bertrand Editora.
Loureiro, Luís Miguel (2007). "Os arquivos globais de vídeo na Internet: entre o efémero e as novas perenidades. O caso do Youtube", Comunicação e Sociedade, 12, pp.163-172. Braga: CECS, U. Minho.
Vilches, Lorenzo (2003). A migração para o digital. São Paulo: Edições Loyola.

2 comentários:

Luis M. Loureiro disse...

Caro Luís, é muito interessante a analogia que estabelece com a definição original de Marc Augé, especialmente no que toca a essa questão da identidade, que me interessa particularmente, e que me leva a reflectir sobre estes "não-lugares" da internet onde, de acordo com Sherry Turkle, multiplicamos... identidades. Como comparar, então, os "não-lugares" de Marc Augé, lugares físicos onde nos cruzamos com outros anónimos como nós, gente de rosto sem identidade, com os "não-lugares" virtuais onde nos cruzamos com tantas outras multiplicidades identitárias, sendo nós próprios representações fragmentárias de identidades que já não conseguimos definir como um todo uno?
Como observar a evolução dos "não-lugares" antropológicos de Augé, feitos de rostos que se encontram face-a-face preferindo manter um anonimato distante, nestes "não-lugares" virtuais onde, na nossa tele-presença imediata, nos encontramos com outros rostos que colocam em cada clip uma expectativa de afirmação identitária que, provavelmente, mais não será que simplesmente frustrada pelo permanente congelamento do frame?
Confesso que me despertou para uma reflexão sobre o uso profundo de um conceito. Penso que temos aqui, de facto, novos "não-lugares". Mas que a sua elaboração tem cambiantes em relação à proposta de Marc Augé, disso não me parecem restar grandes dúvidas. Um abraço. Luís Miguel Loureiro

Luís Pereira disse...

Caro semi-homónimo Luís Miguel Loureiro

Muito obrigado pelo comentário e pelas achegas.

Parafraseando a pergunta tão marcante do Frei Luís de Sousa, apetece dizer:
- Quem és tu, romeiro [utilizador da net]?

O próprio vocabulário na web é rico para dar nomes a identidades que vamos assumindo, como nick, avatar. Mas no mundo analógico também existe pseudónimo, heterónimo

Lembrei-me também de um vídeo para o qual coloquei aqui uma ligação.

Enfim, algumas ideias sacadas na leitura do comentário.

Um vez mais, obrigado!

Saudações,
Luís Miguel Pereira